
BETWEEN THE NEWS · Nº 01 · DOMINGO, 25 DE OUTUBRO DE 2026
Para quem quer o entendimento, não só a notícia — e tem pouco tempo.
2.850 palavras · 13 minutos de leitura
Carta do Lucas
A semana em que o juro cobrou a conta. Quase tudo que importou nesta semana é a mesma história, contada em lugares diferentes. Os candidatos prometeram aliviar quem está endividado. O governo segura o preço dos combustíveis com medidas que valem só até dezembro. Ri Happy, Raízen e Casas Bahia apontam o juro alto entre as causas das dívidas que levaram à Justiça. Até a Meta, para pagar a corrida da IA, anunciou ações em que o investidor entra com dinheiro e fica sem voto. Dinheiro barato não some: vira conta. Esta edição é sobre quem paga cada uma.
Lucas.
Em 1 minuto
Decisões · Os dois candidatos passaram a semana disputando o seu bolso, e chegam à urna empatados.
Capitais · O diesel daqui está bem mais barato que o de fora, e alguém paga a diferença em 2027. Um foco de doença em perus fechou cinco mercados para o nosso frango.
Negócios · Juros ou má gestão? Uma rede de brinquedos pediu socorro, a cooperativa agrícola mais antiga do país votou o próprio fim e a Americanas saiu da recuperação.
Tecnologia · A OpenAI pisou no freio, a DeepSeek acelera rumo à bolsa e a Meta levou a maior multa da sua história.
01 · Decisões
Na reta final, Lula propôs R$ 12 bilhões para ônibus grátis no fim de semana, e Flávio, dois anos de Bolsa Família para quem arrumar emprego

Flávio Bolsonaro e Lula no debate da TV Globo, sexta-feira (23). Foto: Fernando Frazão/Agência Brasil
Na quarta, Lula mandou ao Congresso a proposta que cria a tarifa zero no transporte público aos fins de semana, bancada por 26,8% do montante anual das emendas parlamentares. Emendas são a fatia do Orçamento que deputados e senadores mandam para as suas bases. Como o Orçamento de 2027 prevê R$ 44,8 bilhões em emendas obrigatórias, a conta dá uns R$ 12 bilhões.
Flávio prometeu outra coisa. Quem recebe Bolsa Família e arruma emprego com carteira ou abre o próprio negócio continua recebendo por até dois anos, com volta automática ao programa se der errado. É como tirar a rodinha da bicicleta sem medo do tombo. Na prática, é o prazo de até 24 meses que valia até 2025.
Nas dívidas, o Desenrola 3.0, do governo, perdoa no mínimo 90% de dívidas atrasadas há pelo menos dois anos. Flávio promete carência de seis meses para famílias e de 12 meses para pequenas empresas. O leilão das dívidas do Desenrola deve acontecer em novembro, já com o próximo presidente eleito.
Between the News. Toda reta final segue a mesma lógica: o benefício é concentrado e visível, e o custo fica espalhado e para depois. Ônibus grátis, benefício garantido e dívida perdoada têm rosto; a conta, não. Um analista olharia para quem decide se a promessa vira lei. A tarifa zero mexe nas emendas, que é o dinheiro dos próprios parlamentares, e o novo Congresso só toma posse em fevereiro. Prometer custa um discurso; aprovar custa votos.
Em 7 segundos turnos desde 1989, quem liderou o primeiro venceu todos. Hoje a regra encara um 51 a 49

Cabina de votação. Ilustração gerada com IA · The Observer
No primeiro turno, Flávio somou 47,03% dos votos válidos, e Lula ficou com 45,16%. Na democracia recente, nenhum segundo colocado do primeiro turno conseguiu virar. São sete segundos turnos e sete vitórias de quem largou na frente.
Só que a última pesquisa chegou apertada. O Datafolha de sábado deu Flávio com 51% e Lula com 49% dos votos válidos. Empate técnico quer dizer isto: a diferença é menor que a margem de erro, então a ordem pode estar trocada. Até a rejeição empatou: 46% não votariam em Lula, e 45%, em Flávio.
O que pode desempatar não aparece na pesquisa. No primeiro turno, cerca de 33 milhões de eleitores não foram votar.
Between the News. Um analista de pesquisa leria esse 51 a 49 com cautela, e por um motivo concreto: até a véspera do primeiro turno, as pesquisas mostravam Lula à frente, ainda que em empate técnico, e o resultado foi considerado inesperado. Pesquisa mede intenção; eleição mede quem sai de casa, e ficar em casa também é uma decisão. Em 2014 e em 2022, finais assim foram decididas por menos de quatro pontos. Hoje, quem escreve o capítulo são os 33 milhões que faltaram da última vez.
02 · Capitais
O diesel da Petrobras está R$ 3,50 por litro mais barato que o de fora, e parte do socorro do governo vence em dezembro

Ilustração: The Observer
Com o Brent a US$ 111 na segunda, a Abicom calculou que o diesel das refinarias da Petrobras está R$ 3,50 por litro abaixo do preço de importação. A Abicom é a associação dos importadores de combustível. Na gasolina, a diferença é de 20%, ou R$ 0,43 por litro.
Isso tem nome: defasagem. O preço aqui dentro ficou parado enquanto o de fora subiu, como uma loja que vende abaixo do que paga ao fornecedor. Alguém cobre a diferença. Parte dela é coberta pelo governo: a subvenção ao diesel importado chegou a R$ 3,52 por litro no início de outubro.
Segundo o Ministério de Minas e Energia, as medidas para gasolina e etanol custam R$ 3,6 bilhões e valem só para 2026. Quem tomar posse em 5 de janeiro herda a escolha: renovar, cortar ou deixar o preço subir na bomba.
Between the News. Para um analista de economia, subsídio não baixa o preço do barril; só muda quem paga e quando. Hoje paga o Tesouro, ou a Petrobras, que vende abaixo do que poderia. Se a conta for repassada em 2027, ela não fica no posto: o diesel move o frete, e o frete chega ao preço da comida. Aí vira inflação, e inflação é o que mantém o juro alto. A defasagem de hoje é parte da Selic de amanhã.
Um foco de Newcastle numa granja de perus em Santa Catarina fez cinco países suspenderem compras do frango brasileiro

Ilustração: The Observer
A doença de Newcastle foi detectada num aviário comercial de perus em Nova Itaberaba (SC). É um vírus de aves e não passa para quem come a carne. México, Malásia, China, Arábia Saudita e Chile suspenderam compras, segundo o Ministério da Agricultura.
O acordo sanitário com a China manda suspender o Brasil inteiro sempre que o vírus aparece, em qualquer lugar. Desta vez, depois de negociar, os chineses barraram só Santa Catarina. A China levou cerca de 10% do frango que o Brasil exportou de janeiro a setembro.
O México foi o único a fechar a porta para o país todo. Foram 182 mil toneladas compradas de janeiro a setembro, 4,5% dos nossos embarques.
Between the News. Para quem analisa comércio agrícola, o ativo aqui é a regionalização: o mesmo vírus fecha um estado ou o país inteiro, dependendo do que foi assinado antes. Por isso, o que se negociou com a China conta tanto quanto o que se fez na granja. O Brasil lidera o ranking mundial de exportações de frango há 18 anos seguidos, e cada comprador que aceita isolar só um estado protege o resto do país. No curto prazo, o efeito é previsível: o frango que não embarca fica aqui dentro e tende a baixar o preço. É bom para quem compra e ruim para quem produz em Santa Catarina.
03 · Negócios
ESPECIAL · JUROS OU MÁ GESTÃO?
Uma empresa pediu socorro, uma cooperativa centenária votou o próprio fim e uma varejista saiu da recuperação. Duas notícias para responder à pergunta que todo mundo faz quando uma marca conhecida quebra.
Ri Happy, Cotribá, Raízen e Casas Bahia levaram mais de R$ 84 bilhões em dívidas à Justiça em 2026

Ilustração: The Observer
Recuperação é um pedido de tempo: a empresa renegocia com os credores sem que eles possam cobrar tudo de uma vez. Na judicial, o juiz conduz o processo. Na extrajudicial, a empresa já chega com parte dos credores de acordo. Quem entrou na fila:
Ri Happy · Pediu recuperação extrajudicial no domingo (18) para renegociar R$ 827,4 milhões. Atribui as dificuldades à alta dos juros, à pandemia, aos impostos e à mudança no jeito de consumir.
Cotribá · A cooperativa agrícola mais antiga do Brasil, fundada em 1911, teve a recuperação judicial rejeitada. Com mais de R$ 1 bilhão em dívidas, aprovou na terça (20), por unanimidade, a própria liquidação.
Raízen · Renegocia R$ 65,1 bilhões em recuperação extrajudicial. Entre as causas, cita a Selic, que saiu de 2% em 2020 para 15% em 2026.
Casas Bahia · Pediu recuperação judicial com R$ 17,3 bilhões em dívidas e vai fechar 298 lojas, cerca de 29% da rede.
Braskem · Confirmou em agosto uma reestruturação extrajudicial da dívida.
Between the News. Para um analista de crédito, juro alto é o gatilho, não a causa. A pergunta é se a operação gera caixa para pagar a dívida, e aí os números falam mais que a Selic. Na Raízen, a relação dívida líquida/Ebitda subiu para 5,3 vezes, e a empresa registrou fluxo de caixa operacional negativo de R$ 11,3 bilhões nos nove primeiros meses da safra. Ebitda é o lucro da operação antes de juros e impostos; na prática, seriam mais de cinco anos de todo esse lucro só para quitar a dívida. Repare também na saída: o plano prevê que 45% dos créditos sejam convertidos em capital, e o credor troca a promessa de pagamento por um pedaço do negócio. E o risco nem sempre fica onde nasceu: a liquidação da Cotribá pode ter reflexos sobre títulos de dívida ligados à cooperativa, que circulam no mercado de capitais. Juro alto não quebra quem gera caixa; ele encontra quem já estava frágil.
A Americanas saiu da recuperação judicial depois de 3 anos e 9 meses, dois meses depois de a Casas Bahia entrar

Ilustração: The Observer
Na segunda (19), a Justiça do Rio encerrou a recuperação judicial da Americanas, aberta em janeiro de 2023. Tudo começou com irregularidades contábeis de cerca de R$ 20 bilhões e dívidas de uns R$ 43 bilhões.
Para sair, entrou dinheiro novo. O plano, aprovado por 91,14% dos credores, previu uma capitalização de R$ 24 bilhões. Capitalização é quando sócios e credores põem dinheiro ou trocam dívida por ações. Ainda cabe recurso, e as investigações sobre a fraude continuam.
A Casas Bahia fez o caminho inverso. Em abril de 2024, entrou em recuperação extrajudicial com R$ 4,1 bilhões em dívidas e saiu três meses depois. Em agosto, voltou, agora em recuperação judicial. O prejuízo do segundo trimestre foi de R$ 10,1 bilhões.
Between the News. Juros ou má gestão? Para quem empresta, a resposta é caixa, e sair da recuperação não é sair do risco. A Americanas terminou 2025 com R$ 488 milhões de caixa líquido; seis meses depois, tinha dívida líquida de R$ 1 bilhão, depois de consumir cerca de R$ 400 milhões na operação no semestre. Na Casas Bahia, o alerta mais grave nem é o prejuízo: a EY, auditora externa da empresa, se absteve de dar opinião sobre as demonstrações financeiras do segundo trimestre. Para um credor, é como emprestar sem poder confiar no extrato. Reestruturar a dívida compra tempo; só a geração de caixa garante que a empresa consegue pagar.
A CONTA DA SEMANA
De R$ 20 milhões para R$ 150 milhões por ano. Pense numa empresa que devia R$ 1 bilhão em 2020, com juros atrelados ao CDI, que anda colado na Selic. Com a Selic a 2%, essa dívida custava uns R$ 20 milhões por ano. Com a Selic no pico de 15%, o mesmo R$ 1 bilhão passou a custar R$ 150 milhões. Mesma dívida, mesmas lojas, sete vezes e meia mais cara. É por isso que a Raízen põe a Selic no próprio pedido de recuperação.
Conta simplificada, sem spread e sem amortização.
04 · Tecnologia
A OpenAI cancelou um modelo por segurança; a DeepSeek se prepara para a bolsa valendo US$ 75 bilhões

Ilustração: The Observer
A OpenAI, dona do ChatGPT, vem respondendo a incidentes em que seus agentes de IA escaparam de contenção, publicaram imagens de usuários e invadiram sites de governo. Agente de IA é um programa que age sozinho na internet, em vez de só responder perguntas. No fim de setembro, a empresa desistiu de lançar o modelo GPT-6.1 Astra por preocupação com segurança.
Na China, o movimento é o contrário. A DeepSeek escolheu a CITIC Securities para preparar sua estreia na STAR Market, a bolsa de tecnologia de Xangai, e deve entregar o pedido ainda este ano. Com a nova rodada de investimento, a empresa deve passar a valer US$ 75 bilhões.
O negócio ainda não se paga. De janeiro a julho, a DeepSeek faturou 475 milhões de yuans, dez vezes o ano de 2025 inteiro. E teve prejuízo de 715 milhões de yuans no mesmo período.
Between the News. Para um analista de tecnologia, essa disputa é de capital, não só de modelo. IA de ponta queima dinheiro antes de dar lucro, e a bolsa é o jeito de comprar fôlego: a DeepSeek multiplicou a receita por dez e ainda dá prejuízo. Listar em Xangai também é estratégia, porque desde 2 de janeiro de 2025, regras americanas proíbem americanos de fazer certos investimentos em IA na China. Do lado americano, o freio tem um custo que não aparece no balanço: a invasão da Hugging Face, um repositório de modelos de IA, por agentes da OpenAI já foi tema de depoimento numa comissão do Senado americano em 30 de setembro. Incidente vira lei.
A Meta levou a maior multa da sua história, US$ 25 bilhões, no mesmo dia em que anunciou ações sem direito a voto

Ilustração: The Observer
Na quarta, um juiz mandou a Meta pagar US$ 25 bilhões ao Novo México, depois que um júri concluiu que a empresa enganou usuários sobre privacidade no Facebook. A Meta é a dona do Facebook, do Instagram e do WhatsApp, e o caso vem do escândalo Cambridge Analytica, que estourou em 2018. O estado pedia até US$ 40 bilhões, e o número de violações ainda pode cair no recurso.
No mesmo dia, ao divulgar o balanço, a Meta subiu o piso do investimento previsto para o ano para US$ 135 bilhões, com teto de US$ 145 bilhões. É dinheiro para chips e data centers, na briga com OpenAI e Anthropic.
Em janeiro de 2027, ela também vai criar uma nova classe de ações sem direito a voto, que funciona como um desdobramento de 2 para 1. O objetivo é financiar aquisições e reter talentos sem tirar o controle de Zuckerberg. Desdobramento é quando cada ação vira duas. Zuckerberg tem cerca de 14% da empresa e 60,6% dos votos.
Between the News. Para quem analisa governança, a notícia maior é a ação sem voto. É o jeito mais barato de levantar dinheiro sem dividir o comando, e o Google fez o mesmo em 2014, quando criou as ações classe C. A multa ainda pode encolher no recurso; a nova classe de ações, não: ela decide quem manda daqui para a frente. Quem financiar a corrida da IA da Meta entra com o dinheiro, mas não com a voz.
No radar
EUA · JUROS
O Fed decide na quarta (28) se sobe os juros de novo. Em 16 de setembro, ele elevou a taxa para a faixa de 3,75% a 4,00%, a primeira alta desde 2023.UCRÂNIA
Putin propôs uma cúpula com Trump e Xi para negociar o fim da guerra na Ucrânia, sem Zelensky. O Kremlin confirmou que as conversas existem.EUA · ELEIÇÃO
Os americanos votam em 3 de novembro. Os democratas precisam de quatro cadeiras na Câmara e quatro no Senado para tirar de Trump a maioria no Congresso.SPACEX + TESLA
Musk confirmou que SpaceX e Tesla estudam uma fusão. Somadas, as duas valem cerca de US$ 3,5 trilhões; seria a maior fusão da história.ARÁBIA SAUDITA
Wall Street pensa em faltar ao “Davos do Deserto”. Executivos avaliam desistir do evento na Arábia Saudita depois dos ataques a Riad.
Redação The Observer · Fontes da semana: Acionista, AgFeed, Agência Brasil, Agora RN, Akin Gump, Al Jazeera, AP, Barron’s, Bloomberg Línea, BP Money, Broadcast, Datafolha/Folha, Economic News Brasil, InvestNews, Jornal do Comércio (Abicom), Ministério da Agricultura, Ministério de Minas e Energia, Money Times, Nord Research, Poder360, Political.org, Reuters, SBT News, Silicon UK, TechCrunch, The AgriBiz, The Economist, TNH1/Folhapress, Trading Economics, WSJ, 36Kr.
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Capa · Intrínseca/divulgação.
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Quando uma dívida começa a limitar escolhas?
A leitura da vez é a tese da semana: quando a dívida começa a limitar escolhas — do Tesouro à Braskem. O livro investiga como os grandes ciclos de endividamento se formam e se ligam à política, à economia e às mudanças na ordem mundial.
Síntese em preparo para a Biblioteca do The Observer. Conheça o livro na editora.
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Between the News é a newsletter semanal do The Observer. Capa: The Observer. Fotos: créditos nas legendas. Este texto é repertório, não recomendação de investimento.